“Apenas sabíamos que uma reta, se lhe apetece, pode ser curva ou quebrada e que as estrelas errantes são crianças que ignoram a aritmética.” Rafael Alberti
– Rose, Rose, Rose...
– Jack, Jack, Jack...
Procurava-se o casal enamorado, Rose e Jack, no momento mais trágico da sua história de amor impossível, vivido clandestinamente. Era o momento do naufrágio do Titanic. Ante a onipotência do iceberg, o navio afunda partido ao meio. O casal é lançado às águas, e Jack, não resistindo ao frio arrasador do Atlântico, morre fazendo Rose lhe prometer que continuará viva, mas livre, e que realizará todos os sonhos que ela tiver.
Era no cinema, em Governador Valadares. A emoção levava às lágrimas os mais sensíveis. Bem próxima à minha poltrona estavam o Digo e a namorada. Pareceu-me que viera dali um choro que sofria para disfarçar-se. Tudo indicava ser o Digo - ele estava um pouco afastado da namorada. Pagaria outro bilhete de entrada para saber, e pagaria outro para vê-lo “sentimentoso”: Um espetáculo!
Ao acender das luzes fui logo dizendo que Digo era “moçoila” – não resistira ao ver os olhinhos verdes do Dicaprio se apagarem. Ele se silenciava, não respondia nada com aquela cara que sempre é de bom amigo.
Bastou que saíssemos da sala de exibição, para o Digo, que agora é doutor, me chamar a um canto, e olhando-me de muito sério, confidenciar ali – que sim, fora ele que chorara naquele escuro de cinema – porém não porque morrera o Jack, na lívida pele do Leonardo Dicaprio, a balbuciar o nome da sua amada Rose encarnada na voluptuosa Kate Winslet, mas porque não era humano a orquestra tocar “Meu coração com Deus” – magnífica – enquanto afundava o British White Star Line, com mais de duas mil e duzentas vidas. Não era humano. Aquilo era uma insolência. O mundo não precisa de semideuses. Enquanto existirem os semideuses os homens morrerão mais e mais – e continuando, completou – O mundo carece de humanidade.
Desde aquela noite de Valadares, tornei-me menos um iceberg – mármore à deriva e indiferente – a flutuar em mares gelados. Depois daquela noite de cinema em Valadares, em certo grau me derreti, e nunca mais fui o mesmo.
♪ De ouvir: Celine Dion/James Horner / My Heart Will Go On
Boomp3.comVídeo:































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9 comentários:
Amigo Joel,
Sem palavras para agradecer a sua gentileza.
A sensibilidade humana parece estar "fora de moda", infelizmente.
Ainda domingo passado estive em um seminário da Seicho-No-Ie que(...) Vou fazer melhor: vou contar isso no blog, e reproduzir arte da sua arte lá, e deixar que os leitores venham conhecer o final aqui.
Sua gentileza, meu amigo, não tem precedentes, e ao mesmo tempo que me rouba o ar por instantes, espalha endorfinas pelo meu sangue.
No mesmo seminário de que comecei a falar, vi o valor que os praticantes daquela filosofia dão à expressão "muito obrigado".
Então, meu amigo, "Bom Dia", e MUITO OBRIGADO!
Fortes e calorosos amplexos de um admirador incondicional, e agora ainda mais feliz!
Olá Joel! Adorei este texto e compreendo a mudança que este fato ocasionou em você. Eu creio que a música tem enormes poderes e com ela podemos chegar perto de Deus. Mesmo nas grandes tragédias.
Beijo.
Nossa!
Parabéns!
Meu querido amigo merece!
Bjos
Olá Joel, cheguei aqui"Flainando" junto com o Oscar.
Conhecí este moço tem exatos 4 dias.
Ontem foi a primeira vez que conversei com ele mais tempo, e aí ele me contou uma história, de como ele foi parar em uma operação resgate, qdo nunca achava que seu lugar não era alí "um reles biólogo" foram as palavras dele.
Enquanto eu lia ele contar, eu ia vendo as cenas, sabe, e ia sentindo tudo que ele sentiu (mesmo sem dizer uma palavra sequer), e eu disse a ele no final:
- Duas mãos e uma cabeça pensante muito bem recomendadas, prá ajudar e tentar achar uma saída. VC.
Porque eles mandaram VC, mesmo VC achando que não dava conta.
Vc tbm não chegou a esta conclusão, de que vc deu conta, mesmo achando que não daria? E a sensação de dever cumprido não é maravilhosa?
e a satisfação queimando a alma de calor humano?
Eu acho que isso traduz o que este moço parece ser.
Para mim que acabei de conhecê-lo, este texto foi perfeito a ele.
Parabéns a vc pelo texto.
Parabéns aos dois pela amizade.
E eu choro com essas coisas. O mundo precisa muito deste monte de carinho.
Beijo
Queridissimo Joel,
Acompanho teus blogs já algum tempo. Sou tua fã.
parabéns,
beijos
Joel, o mundo precisa de delicadeza.
Bem aproveitada a lição que seu amigo lhe deu! (rs*) Você aí derretendo icebergs e aqui, derretendo corações! Adorei, virou uma bela crônica.
Beijus, Luma
Oi, Joel, hoje vim para escutar " My heart will go on"... Lindo, amigo. Quero colocar música no meu blog, mas tá difícil!
Abraços
Taís Luso
SEMPRE MUITO INTERESSANTE, PARABÉNS.
Alexandre Halfeld
cronicas são sempre interresantes de ser ler e a sua esta muito boa.. parabens
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